Geral
Criolo, Amaro de Freitas e Dino D’Santiago se unem em disco que celebra as raízes da língua portuguesa
Hoje, 15 de janeiro, chega em todas as plataformas de músicas o álbum Criolo, Amaro & Dino.
Ouça aqui.
CRIOLO, AMARO & DINO
por Kalaf Epalanga
Há encontros artísticos que parecem planejados pela própria lógica misteriosa da música . Colaborações que não obedecem a agendas, calendários ou estratégias de carreira, mas que surgem como uma espécie de correção de rota. Criolo, Amaro & Dino pertence a essa rara categoria: um álbum que não nasceu de um plano, mas de um instante. Um “chega aí, estamos no estúdio”, dito de forma inesperada via WhatsApp. Um quase acaso. E, talvez por isso, carrega a força das coisas inevitáveis.
O ponto de partida foi Lisboa. A cidade onde as histórias da diáspora africana se sedimentam em camadas visíveis e invisíveis serviu como território neutro e, ao mesmo tempo, altamente carregado. Ali, enquanto Criolo e Dino d’Santiago desenvolviam um projeto inédito, o pianista brasileiro Amaro Freitas apareceu em estúdio. O encontro levou horas, e dessas horas, emergiu “Esperança”, canção que rapidamente escapou das mãos de seus criadores, ganhou vida própria e foi nomeada ao Latin Grammy. A história poderia ter terminado ali. Não terminou.
Em vez disso, aquele primeiro gesto abriu um portal.
E o que poderia ter sido uma faixa isolada se transformou num Álbum com A maiúsculo, uma obra que ultrapassa categorias convencionais rap, MPB, jazz, morna, funaná para construir um idioma próprio, enraizado nas tradições afro-atlânticas, mas profundamente contemporâneo em forma, timbre e ambição.
Os três artistas vêm de geografias e linhagens distintas.
Criolo, um dos nomes mais importantes do hip-hop brasileiro, traz na voz o peso das ruas de São Paulo, a pedagogia das periferias e uma poética de resistência que se dobra, se expande e se reinventa. Dino d’Santiago, algarvio de ascendência cabo-verdiana, é hoje uma das vozes mais proeminentes da música portuguesa, uma figura que reconfigurou o lugar do batuku e do funaná dentro da esfera pop europeia. Já Amaro Freitas é um dos pianistas mais inovadores do jazz atual, redesenhando o instrumento a partir das tradições rítmicas de Pernambuco: maracatu, frevo, baião e desafiando qualquer hierarquia entre “erudito” e “popular”.
À primeira vista, são universos distintos.
Mas ao ouvi-los juntos, percebe-se algo mais profundo: todos eles carregam, cada um à sua maneira, o som da diáspora africana, com suas fraturas, invenções, resiliências e continuidades.
Este é o substrato que une o trio. Não um estilo, mas um impulso.
A compreensão de que a música também é lugar de reparação, de memória e de imaginação. E que, quando executada com coragem, ela pode tocar naquilo que as fronteiras tentam impedir: circulação de saberes, afetos e histórias.
Embora gravado entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, o álbum soa como se nascesse de um único território. Um país que não existe no mapa, mas sim na memória coletiva de todos os que nele participaram. Para chegar até ele, basta fechar os olhos e seguir os sopros de Henrique Albino, que cruzam o disco como trilhas de vento; deixar o corpo ceder aos beats assinados por Criolo, Holly, Seiji sempre em diálogo com as batidas ancestrais; perceber como o piano de Amaro não apenas ocupa espaços, os reinventa; e ouvir as vozes que se alternam como múltiplas versões de uma mesma consciência.
Há canções que parecem crônicas, como “E Se Livros Fossem Líquidos?”, cujo imaginário literário se derrama em metáforas políticas. Outras funcionam como encontros comunitários, como em “Você Não Me Quis”, com a participação das Clarianas, ou “Menina do Côco de Garipé”, onde rabeca, coro e percussão evocam heranças que antecedem o próprio conceito de Brasil.
Sons de Cabo Verde emergem, não como exotismo, mas como um dos vértices deste triângulo. A verve poética de Criolo puxa o ritmo para o concreto, enquanto a espiritualidade de Dino oferece ao disco o seu eixo como em “No Vento de Nós”, quando ele afirma: “Se o futuro é uma pergunta, eu respondo com o mar”, evocando a grande Kalunga, essa linha que une e separa o visível do invisível. E Amaro, com sua abordagem percussiva ao piano, costura essas margens com rigor e delicadeza.
Em “Seka”, o álbum encontra um dos seus momentos mais luminosos: um raro gesto de abundância em tempo de escassez, embalado pelo batuku, pulso ancestral nascido do corpo e da resistência das mulheres cabo-verdianas, generosa como a primeira água que cai após meses de seca na aridez do arquipélago da morabeza.
E na faixa “Amazônia” desenhada sobre aquela levada jazzy: A Tribe Called Quest, Karriem Riggins, Azymuth, em que o groove desliza macio, mas a mensagem corta fundo. Criolo aponta para a nossa indignação seletiva:
“Corre, acorde ali tá pegando fogo, olha ali que tá pegando,
a Amazônia está pegando fogo, não é só L.A. que tá pegando fogo.”
Os versos aproximam geografias Amazonas, Califórnia, o planeta inteiro lembrando que o colapso climático não reconhece fronteiras. Sem doutrinar, apenas iluminando o óbvio, cada canção nascida desse encontro faz o que a música afro-diaspórica sempre fez: desafia a ideia de “centro cultural”, desloca coordenadas e coloca em circulação mundos historicamente confinados. O disco não reivindica lugar ele cria um.
É isso que se ouve aqui.
Um disco que não esconde suas cicatrizes, mas também não abdica de sua vocação para o futuro. Criolo, Amaro & Dino é também uma topografia emocional do Atlântico negro e contemporâneo.
Uma prova de que encontros imprevisíveis ainda podem alterar o curso das coisas. Um lembrete urgente de que a música continua sendo um dos lugares onde a esperança, essa palavra tão gasta, ainda pode soar verdadeira.
Vamos escutá-lo na ordem que nos é proposta, tendo em mente que a música negra não é um gênero; é uma conversa permanente sobre liberdade.
Nota cedida por: Perfexx Assessoria
Foto: Vik Muniz
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