Geral
A paixão após o término
Bruna Foss transforma um relacionamento intercultural em ESTRANGEIRA, EP de estreia que percorre três idiomas entre paixão, desencontros e saudade
Estrangeira, do latim extraneus, significa “o que é de fora” ou “não familiar”. No primeiro EP de Bruna Foss, a palavra pode nomear tanto a americana por quem a cantora se apaixonou quanto a própria brasileira vivendo longe de casa. Essa mudança de perspectiva atravessa ESTRANGEIRA, projeto de sete faixas em português, inglês e italiano disponível nas plataformas digitais. Entre o início e fim de um romance intercultural, Bruna explora como um relacionamento nos transforma e o que permanece depois da despedida.
“Nunca senti que pertencia a um só lugar. Preciso de mudanças, e um certo caos, para me sentir viva. Isso também reflete em como eu me relaciono.” A cantora e compositora curitibana encontrou a matéria do projeto nas experiências durante seus estudos em Grinnell College, nos Estados Unidos, e sua temporada em Milão, na Itália. Estudante de Música e Economia, Bruna narra um relacionamento entre uma brasileira e uma americana, atravessado pela distância e pelas mudanças pessoais de quem está construindo a vida fora de casa.
“Meu objetivo é misturar as minhas influências brasileiras com as que criei durante as minhas viagens. Sempre tento ‘abrasileirar’ novos gêneros”, contou Bruna em entrevista à Banda B. Em ESTRANGEIRA, essa mistura acompanha o movimento da história. A MPB encontra bossa nova, samba-rock, folk, pop italiano, indie rock, e blues, enquanto as mudanças de idioma aproximam o ouvinte dos lugares e das relações que marcaram o período. Cada faixa apresenta uma nova perspectiva sobre o relacionamento.
Gravado entre junho e agosto deste ano, em Curitiba, o projeto tem produção musical de Eduardo Rozeira, guitarrista e produtor d’A Banda Mais Bonita da Cidade, e reúne músicos com atuação no cenário brasileiro. Entre eles estão Luis Bourscheidt, também integrante da banda, na bateria; Audryn Souza, que já trabalhou com Anitta, Jão e Marina Sena, nos sopros; e Bernardo Derviche Hey, membro da Jovem Dionísio, nas cordas. Nas composições, Bruna assina parcerias com as curitibanas Mara Marques, em “Americana”, e MARI DK, em “aindatechamo.mp3”.
FAIXA A FAIXA
“Canção de Abril” abre o repertório com uma bossa nova tradicional, apresentando as raízes de Bruna e sua relação ambivalente com o Brasil. Entre os versos “Vou navegando, fujo do Brasil” e “Vou navegando, fujo pro Brasil”, o país se torna tanto ponto de partida quanto refúgio, introduzindo a busca por pertencimento que atravessa o EP. Bruna explica: “Canção de Abril foi um produto da minha saudade do Brasil enquanto estava na Itália, em um momento em que me desconectava do meu relacionamento à distância.”
Em “Americana”, o encontro entre culturas ganha o movimento do samba-rock. A música nasceu como uma declaração para a então namorada, com quem Bruna já havia lançado “Don’t Change Your Mind”. Quando o relacionamento terminou, a nova canção estava praticamente pronta. A artista decidiu lançá-la mesmo assim: “Eu decidi lançar a música mesmo assim porque ela conta a minha história. A paixão não acaba depois do término”, explicou à Banda B. Lançado como primeiro single do EP, a faixa já conta com 200 mil streams nas plataformas digitais e milhões de views nas redes sociais.
“Medo do Escuro” desloca a narrativa para o desgaste da relação. “Nosso amor antigo já não tem futuro / meus fantasmas ficaram pra trás”, diz a letra. Bruna aborda a dificuldade de abrir mão de uma versão idealizada de si mesma em nome de outra pessoa. “Escrevi ‘Medo’ um dia depois do término, no estágio confuso de agonia e liberdade. Sabia que era a decisão certa, mas não deixava de ser doído”. A faixa é uma das principais apostas do EP para apresentar a vertente pop de Bruna, combinando texturas eletrônicas e elementos do folk.
Na sequência, “La Vita” amplia a geografia do projeto. A colaboração com elettricaessenza, projeto da cantora italiana Silvia Esposito, aproxima o pop italiano da MPB em uma composição sobre pertencimento e movimento. A faixa tem influências da banda Selton, formada por brasileiros que moram na Itália, com quem Bruna também se aproximou durante o seu tempo em Milão. “Ma la vita cosa fa? (Mas a vida o que faz?) / Se tudo vai e vem”, cantam Bruna e Silvia. “Conheci a Silvia durante o meu estágio no CPM Music Institute. Ela é uma das promessas do indie italiano e trouxe muita sensibilidade pro projeto. Nos conectamos através do sentimento de querer explorar o mundo, mas sempre querer voltar para aquela pessoa”, adiciona Bruna.
Em “Talvez”, a incerteza ocupa o centro da canção. Segundo single do EP, a faixa parte da delicadeza do folk e cresce até a intensidade do indie rock, criando uma virada que surpreende o ouvinte e acentua a carga emocional da letra. Ao longo da música, Bruna também manipula as letras para criar dualidade: “Talvez eu nunca te esqueça” / “Talvez um dia eu te esqueça” e “Eu busque alguém melhor pra mim / Eu busque alguém melhor em mim”. A música recebeu destaque na capa da playlist Rock Leve, do Spotify.
A faixa-título, escolhida como foco do lançamento, apresenta outra disposição diante da própria história. Inspirada no rock e blues brasileiro dos anos 80, “Estrangeira” traduz a liberdade de assumir os próprios defeitos e seguir em frente. Depois de revisitar o encantamento e a perda, Bruna passa a reconhecer o que deseja para si. “Cresci ouvindo Rita Lee, Cássia Eller, Cazuza. Queria transformar a minha radicalidade em homenagem para eles. Quero renovar o que me formou”, conta Bruna.
O encerramento fica com “aindatechamo.mp3”, uma gravação intimista de voz e violão, em formato de nota de voz. “É claro que eu ainda te chamo de amor / Por onde vou, por onde for”, canta Bruna, deixando em aberto uma história que continua no próximo projeto, dedicado ao reencontro com a americana na faculdade. A faixa faz a ponte entre os dois trabalhos e ganhará novos arranjos em “Ainda Te Chamo de Amor”, com lançamento previsto para janeiro.
ALÉM DA MÚSICA
O universo visual acompanha esse percurso com uma imagem recorrente: uma mala. Gravados em Curitiba, os sete clipes formam, em conjunto, um curta-metragem no qual Bruna aparece como viajante. A bagagem dá presença física aos sentimentos e às memórias que ela leva de um lugar para outro.
Nas redes sociais, onde parte do público acompanhou os acontecimentos que inspiraram as músicas, Bruna encontrou também um espaço para apresentar o projeto. “A gente faz a música sem pensar necessariamente em estratégia, mas a rede social se torna aquele lugar de apresentar o conceito e de se conectar com as pessoas”, afirmou à Banda B. Bruna já conta com 400 mil seguidores e diversas contas e grupos de fãs.
Essa conexão ganhou forma presencial na première do EP, realizada dia 16 de agosto na ALT Music, em Curitiba. Com ingressos esgotados, a apresentação reuniu 70 fãs e a mesma banda que participou da produção do trabalho. “Eu faço música para fazer show”, revela a artista na entrevista. Em janeiro de 2027, ESTRANGEIRA seguirá para os palcos em uma turnê com passagem por São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. A apresentação paulistana acontece em 15 de janeiro, na Casa Rockambole. As datas e os locais dos shows no Rio e em Curitiba serão anunciados em breve.
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Nota cedida por: Catto Comunicação
Foto: Divulgação
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