Geral
Novos talentos pé de serra mantém vivo o amor pela sanfona
Como crianças e jovens estão escolhendo o acordeon, desvendando os mistérios do instrumento complexo composto por teclado, baixos e movido a ar pelo fole; um dos pilares da cultura nordestina
No final de março, um dos maiores trios pé de serra anunciou seu novo sanfoneiro no Forró de Domingo do Brasuca. O Trio Cristalino apresentou Theo Lobo como o mais novo integrante e o público se surpreendeu pelo jeitinho ainda menino do músico promissor. Recebido com muitas palmas sob olhares de admiração e espanto, ele tocou pela primeira vez para o público exigente e participativo da casa que mantém o forró em Campinas há 13 anos. Quase a mesma idade de Theo, que completa 15 em setembro. Ele não estava sozinho, como é de costume nesses casos, um sanfoneiro mais experiente o acompanhou. E que sorte a dele, já dividir o palco com Val e seu gogó de ouro, Cris na zabumba e o Moitinha ainda como sanfoneiro principal.
Com olhar de admiração, Theo também absorvia toda aquela novidade que o cercava. No camarim, com os músicos e sua família, ele era todo entusiasmo.
Nascido em SP, com avós nordestinos, ele foi influenciado pelo pai, compositor de música sertaneja Luís Menezes.
Como a casa tinha vários instrumentos, começou pelo violão, tocou teclado, maculelê, percussão, até acompanhou o pai em alguns shows. Mas quando tinha 10 anos, pegou uma sanfona pela primeira vez e se identificou de cara “Comecei a fazer aulas, frequentar o Canto da Ema e conversar com os músicos da cena que sempre me inspiram. Hoje faço aulas com o Gabiru, do Coisa de Zé, que é minha banda favorita. Meu pai colocava Circuladô de Fulô para eu ouvir quando era bebê. Hoje ter a chance de tocar com essas pessoas, em palcos que eles também se apresentam, me emociona muito”. Entre as principais referências estão 3 do Nordeste, Dominguinhos e os contemporâneos, o professor Gabiru e Mestrinho, que alimenta o sonho de o conhecer pessoalmente em breve. “Estou gostando muito dessa atmosfera de amizade que o forró tem. Estou me esforçando, estudando bastante e quero chegar logo a tocar em Itaúnas”, confessa o aluno dedicado.
Hoje aos 31 anos, Gabiru, sanfoneiro do Coisa de Zé, é um exímio professor. Iniciado na música aos oito anos de idade, tocava violino na igreja que frequentava com a família. Com facilidade para ler partituras, aos 12 já ensinava os iniciantes. Aos 16 foi estudar na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo). Depois do ensino médio, passou no bacharelado em Música, com habilitação em Composição da USP, montou um trio na universidade. Em 2018 descobriu um time de futebol em que jogavam outros forrozeiros do circuito pé de serra, incluindo Diego Germano, que viria a ser seu parceiro de banda pouco tempo depois. O convite para integrar o trio chegou após a pandemia. Daí se jogou de cabeça, entendendo melhor a cena e participando dos principais festivais.
Gabiru fala do desafio que é tocar dançando, como ficou conhecido o estilo do trio. “Me especializei em tocar e performar ao mesmo tempo, mantendo a qualidade, coordenando movimentos complicados, mesmo a sanfona sendo esse instrumento pesado e complexo. As performances que fazemos no palco nos colocou em outro patamar, tornando o Coisa de Zé único e exclusivo”, ressalta. Entre suas fontes de inspiração estão Dominguinhos e Mestrinho, esse último se destacando pela parte técnica. “É uma honra ser contemporâneo do Mestrinho e é muito massa acompanhar todo o sucesso que ele faz”, completa.
Encantar pessoas
Dominguinhos é a fonte de inspiração de praticamente todo sanfoneiro, independente da geração que descobre o acordeon. O campineiro Benício de Oliveira Benevido (benicio_do_acordeon), de 10 anos (há 2 estudando sanfona) enfatiza que dentre todos que já viu, Dominguinhos é o melhor! Da participação de uma Folia de Reis, na Bahia, onde estava de férias com a família, se encantou com o som, a postura do tocador e a beleza do abre e fecha do fole que invadiu sua alma. Emocionado, dando pulos de alegria, ele decidiu ali que queria tocar sanfona e fazer as pessoas felizes, como ele se sentia naquela noite. “Foi a coisa mais linda e emocionante que eu vi na minha vida e pedi uma sanfona para o meu pai. Ele comprou uma 8 baixos para eu começar e logo evoluí”.
“A experiência da Folia de Reis foi tão intensa para ele que, na primeira vez que pegou a sanfona, Bê tocou de ouvido, surpreendendo a todos. Parecia que ele já sabia tocar”, revela orgulhosa a mãe Andreia.
Entre as composições preferidas estão Brasileirinho, Feira de Mangaio e Segura a Cabra, que o tio Beto, sanfoneiro do Os Carraras toca, como uma das mais representativas do trio, aquela que não pode faltar. “Benício já tinha visto o tio tocar, mas nunca sentiu aquele chamado, aquela vontade, até ver a Folia de Reis. Foi realmente algo mágico”, pontua a mãe.
“O que me move é o sentimento de encantar. É incrível como esse instrumento deixa as pessoas felizes”, reforça o menino que quer ser biólogo, mas sem nunca deixar de lado a sanfona. Ele já se apresentou em shows e quando perguntado se sentiu nervoso: “Eu não! “Eu sou preparado, eu sei tocar e me garanto”, completa o mini sanfoneiro, de 25 quilos, com uma sanfona de 10 no colo. Nesse vídeo, você pode assistir à entrevista com o menino:
Preparo e admiração
Exatamente por ser um instrumento pesado e complexo, com várias funções ao mesmo tempo, que o experiente Jonas Virgolino aconselha os mais novos a não deixarem de lado o preparo físico. “Além da parte musical, que é a parte gostosa, o sanfoneiro tem que ser acompanhado como um atleta, porque as dores vêm. É muito esforço”. Filho de um dos maiores sanfoneiros do Brasil, Jonas diz que começou tarde, aos 14. De lá pra cá integrou o Bando de Maria, onde ficou 8 anos, depois a Família Virgulino e há 14 anos é o sanfoneiro do Dois Dobrado, que mescla o tradicional ao contemporâneo nas apresentações que fazem pelos principais endereços de forró do Brasil.
“Outra dica que dou é reverência aos mais velhos. Como é bom beber da fonte dos grandes mestres. Como é bom conversar com eles e aprender cada dia mais. Sanfoneiro antigo sempre tem algo novo para a gente aprender e precisamos aproveitar cada momento com eles”, analisa Jonas.
Jonas cita Osvaldinho, Tio Joca do Trio Sabiá, e o próprio pai, Enok Virgulino, como exemplos.
Jonas e Enok Virgulino: amor pela sanfona de pai para filho
Aos 68 anos, Enok é um dos responsáveis pela popularização do ritmo, ligado ativamente ao início do movimento do forró universitário, nos anos 1990. Pernambucano de Parnamirim, ouviu de um amigo do pai que seria bom para ele aprender a tocar algum instrumento, porque devido à sua deficiência visual, não conseguiria trabalhar na roça.
Tocou cavaquinho dos 8 aos 10, mas foi quando pegou uma sanfoninha no colo pela primeira vez que se encantou. Do menino do sertão, com apenas 1% de visão, a um dos maiores nomes do Brasil, já tendo tocado nos EUA e muitos países da Europa, ele relembra sorrindo. “Lá no Nordeste cheguei a tocar até na casa do prefeito, Isso era demais para a gente. Aos 24 anos cheguei em São Paulo e percebi que aquela cidade era grande demais, ia voltar para o PE, mas como tinha parentes em Americana, resolvi fazer uma visita, gostei muito e fiquei, onde estou até hoje”. Na cidade também havia um oftalmologista que o operou, aumentando assim sua capacidade de visão para 5%.
Essa mudança transformou a vida dele e dos que vieram depois. Hoje, são quatro filhos (todos músicos) e cinco netos – mais um a caminho. O amor pelo instrumento passa de geração a geração. Rafa Virgulino é irmão de Jonas e integra o Forró Di Casa e seu sobrinho Lucas, também toca com grandes nomes do movimento. As irmãs tocam triângulo e zabumba.
“A primeira vez que peguei uma sanfona, foi uma alegria muito grande, eu achei até fácil. É preciso estudar muito, mas principalmente ter amor pelo instrumento. Se você gosta da sanfona, já é meio caminho andado, as portas vão se abrindo. E a sensação de ter ela presa ao corpo é como um abraço. É uma sensação maravilhosa”, confessa Enok.
A data 26 de maio marca o Dia do Sanfoneiro, em homenagem ao dia de nascimento de Sivuca (Severino Dias de Oliveira), um dos maiores gênios da sanfona, a quem prestamos nossa homenagem!
Nota cedida por: Silvania Silva
Foto: Divulgação
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o Papo Reto no Instagram.
** A opinião expressa neste texto não é necessariamente a mesma deste site de notícias.
© 2023 Papo Reto | A reprodução deste conteúdo é estritamente proibida sem autorização prévia.
-
Entretenimento1 dia atrásVirginia Fonseca curte dia de diversão em Dubai e encanta seguidores
-
Geral1 dia atrásMichele Andrade lança audiovisual completo “Michele no Sertão das Maravilhas” nesta quinta (21)
-
Carnaval SP2 dias atrásAcadêmicos do Tucuruvi convoca compositores para disputa de samba-enredo de 2027
-
Geral1 dia atrásLuísa Sonza amplia presença internacional em colaboração global com GIMS e ILYAH
-
Geral1 dia atrásMúsica tema de O Gênio do Crime ganha clipe inédito
-
Geral2 dias atrásBruna Viola aposta em repertório versátil na gravação de “Improvável 2”
-
Geral2 dias atrásMilton Guedes lota teatro em São Paulo e consagra início da turnê “Milton Canta Lulu” pelo Brasil
-
Geral2 dias atrásFilho do Piseiro grava primeiro DVD da carreira para mais de 80 mil pessoas em Manaus

